Quinta-feira , 08 de Julho DE 2010

Estórias e memórias

 

Busco para além dos passos

Lentos

A frescura das hortas

Quando as regadeiras eram levadas

De água em cacho

A correr entre cômoros de terra

Adubada pelo suor

Dos corpos fartos de labuta

E no cimo das nogueiras altas

Os melros vinham esperar o momento

De dessedentar os bicos negros

E as penas lustrosas.

 

Busco para além das memórias

Intermitentes

O martelar sibilino do travão

Das noras

Quando o engenho de alcatruzes

Trazia do fundo do poço

A água fresca escorreita

Que lançava no lastro do tanque

Fundo dos banhos estivais

Enquanto o jumento de olhos vendados

Se esforçava na tarefa de curar

A sede dos couvais viçosos.

 

Busco o rumor da fadiga

No aluvião das cantigas morenas

Ao cair das tardes

Quando os carreiros eram estradas

Largas de alvoroços

E os namorados se davam as mãos

Em silêncio

Para dizer calados do amor

E das canseiras

Com olhos mais fundos que o longe

E lábios mais secos que a espera

Dum beijo roubado de fugida.

 

Desato o nó da solidão que é

Saudade e martírio

E penduro no cocuruto das estrelas

Ao rés da lua cheia

Os vaga-lumes mentirosos

Que prometiam um tostão

Quando faltava o pão

E traziam luz às noites de calma

Quando as soleiras das portas eram o palco inteiro

De estórias com enredos mágicos

Onde os homens eram gente boa

E as mulheres mães e avós muito belas!

 

Se uma lágrima vier

Há-de bater primeiro

Que assim são as lágrimas educadas!

Lágrimas de quem olha e sente

Que as amoras colhidas nos silvados

Já não têm o sabor de então;

Os silvados venceram o medo

E galgaram por cima dos carreiros velhos!

Como as hortas se entregaram aos canaviais

Das margens dos ribeiros sazonais,

Talvez enamoradas pela frescura da sombra…

E os melros já não esperam o tempo

De molhar o bico…

 

Nas planícies e nos planaltos,

Nos recantos e nas largas quintas,

Já não se ouvem os burros zurrar

A sede e o cansaço da nora velha!

A nora morreu na podridão do abandono

E os burros adormeceram na inércia

Dos extintos

Como animais sem história

Ainda que personagens de estórias nem sempre

Felizes e valorosas.

Os homens e/imigraram para a selva

E as mulheres construíram lares em socalcos

Sobrepostos, com janelas para o nunca.

 

Rezam as crónicas de pouco entendimento

Que o campo tem outras virtudes

E outras aptidões…

De facto… Quando no lugar do trigo nasce o cardo

E no lugar da horta cresce o silvado,

Que colheita obteremos do nosso desapego,

Que não seja a negação do chão

Donde nos vem a vida?

 

E se negamos a vida

Que fazemos vivos

Neste viver enfadonho?

 

 

Em 08.Jul.2010, pelas 15h45

publicado por Paulo César às 16:38
Sexta-feira , 16 de Abril DE 2010

terra, mãe, matriz

 

já não sei os carreiros

os silvados

as hortas

 

perdi os ninhos dos pássaros

os bandos voláteis

os trinados

 

esqueci a canícula

o frio gélido

a chuva agreste

 

olvidei os cantares genuinos

o labor dos braços

a crueza da faina

 

só não deixei de te amar

terra

mãe

matriz

 

e apetece-me tanto

sentir o cheiro a feno

que sobra

quando as trovoadas

de agosto ribombam

ferindo o espaço

e os feixes felinos

dos relâmpagos faiscantes

desenham no céu pardo

aguarelas abstractas

que amedrontam

e espantam

 


Em Abr.2010, pelas 22h15

 

Imagem: Google

sinto-me: feliz e grato
publicado por Paulo César às 22:14
Segunda-feira , 02 de Novembro DE 2009

Memórias da urze e muito mais

 

Lembrei-me da urze

porque me lembrei da serra

dos montes e vales

do ar puro e das pedras rudes

dos coelhos bravos e das borboletas

dos carreiros estreitos e do mato denso

de pequenas fontes de fios cristalinos

e de poças eternas guardiãs da chuva

que dessedentava as gargantas secas

no pico do verão.

 

Lembrei-me da urze

porque me acudiu a memória

dos pinheirais zoando

à passagem do vento norte

da caruma seca e das pinhas

esventradas

do odor intenso a resina

e dos cogumelos alapados

irrompendo do humus

da terra areenta.

 

Lembrei-me da urze

porque me invadiu o ribeiro

as rãs coachando

as lagartixas fura vidas

as cobras e os lagartos langorosos

as formigas rabinas

na lufa-lufa duma azáfama

sem horário nem escala

as libélulas elegantes

numa dança imortal de tão leve.

 

Lembrei-me da urze

e por ela acabei por me alcandorar

aos cumes do tempo descalço

dos risos desdentados

dos calções passajados e puidos

das mãos e dos corpos tisnados

dos sons naturais da terra e da gente

dos dias prenhes de esforço

e das noites silenciosas de descanso

autêntico.

 

Lembrei-me da urze...

e de tudo o que puxado o fio

se desata sem nós cegos

num mundo de doce e amargo

de luz e sombras

de risos e lágrimas

de ficar quedo e nunca parar

de amar

com despudor e orgulho

o que se ama apenas porque sim.

 

 

Em 02.Nov.2009, pelas 19h30

 

Imagem: Google

sinto-me: chanceler
publicado por Paulo César às 20:00
Sexta-feira , 02 de Outubro DE 2009

Poema para a Terra calada

 

Estendo os braços

e o mar à minha frente

tem cambiantes de loiro

e verde e castanho,

ondeando na planície

de malmequeres e papoilas,

onde as borboletas voejam

tontas

e o passaredo volteia

desenhando, no céu largo,

caminhos sem retorno.

 

Sobem odores do fundo

da terra

e descem à terra madre

sementes de futuro,

impregnados de vida,

que o sol chamará à luz,

depois que a noite adormecer

nos braços do orvalho

matinal.

 

Tanta vida silenciosa

assombra o meu olhar absorto!

Sorvo dum trago o horizonte

e de braços caídos

enlaço a vastidão de lés a lés,

embrenhando-me até aos ossos

na imensidão!

 

Um grilo canta,

uma rã coacha,

um pardal trina,

um galo cacareja,

uma ovelha bale,

um burro zurra,

um gato mia,

um cão ladra

e a terra pacata,

vivaz no seu sossego

manso,
escuta a algazarra

e redonda,

absoluta,
magestosa,

gera no seu seio de mulher

possuida

a vida que nos alimentará

até à comoção,

como se o poema

fosse o ponto de partida

para a aventura

da gratidão!

 

E se palavras forem precisas para dizer

obrigado

inventemos outra forma de o afirmar

para que cada sílaba seja

um hino, uma ode, um labéu

que cante a eterna canção dos filhos

da senhora sua mãe:


A Terra calada!

 


by Paulo César, em 22.Set.2009, pelas 22h30

 

sinto-me: inquieto
publicado por Paulo César às 18:35
Quarta-feira , 08 de Julho DE 2009

Tempos idos... Dialectos perdidos!

 

A par, mansos,
Pachorrentos e de olhos fundos,
Com a canga no cachaço
E os arreios sobre o dorso,
Seguia a junta de bois
Num andar pausado
Na longitudinal do espaço
Ao longo do rio de regos
Que o charrueque rasgava…
 
Na frente seguia um miúdo
Segurando a rédea do cabeçal,
Pés descalços,
Cabelo em desalinho
Olhar no infinito
E um assobio moço
Nos lábios de puto
A trinar, como pardal,
Ao ar fresco dos campos
Em poisio…
 
O arado chiava
No seu rodízio de metal
E segurando o punho da alfaia,
À ré, curvado
Na sua grandeza de ganhão
Vara de aguilhão
Em punho, veemente, em riste,
Fendendo o ar, dominador,
Ia o lavrador
Incentivando a parelha
E corrigindo a rota,
Com palavras sonoras,
Como um chiste:
- Eia, vá lá Bonito…
 
As levas içadas,
Esventradas e cruas,
Esboroavam-se vagarosas
Sob o sol impiedoso
E as minhocas minavam a terra,
Em busca do frescor,
A esconder-se das garças boieiras
Que afoitas e ligeiras
Cirandavam em torno
A buscar seu quinhão
No repasto da lavra…
 
A água corria duma infusa
De barro
Fresca como se corresse da bica
E as gargantas sedentas
Cantavam melhor
Quando o aguadeiro passava
Trazendo nos lábios
Uma cantiga sem história,
Feita de fiapos de memória:
- Oliveirinha da serra…
O vento leva a flor…
 
De sol a sol
As horas eram mais longas
E os dias tinham o tamanho
Da jorna
Com mata-bicho
Pela manhã mal começada,
O almoço ao meio-dia,
E a merenda no pico
Das tardes soalheiras
Quando as sombras
Sabiam a sonho
E o sol se empinava
Ainda à altura do infinito.
 
E quando a lua vinha espreitar
Havia ranchos pelos caminhos,
Cantando ao desafio,
A consumir o tempo
No regresso a casas térreas
Com lareiras de chão
E trempes de ferro
Onde a sopa recendia
E a mesa tinha a forma circular
Da vida
Com candeeiros de petróleo
Ou lanternas de luz mansa.
 
E quando a noite se afoitava
Definitiva
Sobrava o cansaço
E o sono assentava arraiais
Até que o galo imperial
Estrepitasse o silêncio da madrugada
E cantando cinco vezes
Anunciasse a faina de um novo
E imenso dia!
 
E era vê-los, aos magotes,
Homens e mulheres,
Rapazes e moças,
Cesto da bucha à ilharga
E alfaias às costas
A caminho das quintas
Cruzando lugarejos,
Lançando dichotes
E rindo um riso são
Limpo e cristalino
Com a desenvoltura
De iluminados
E a alegria de gente boa.
 
E os dias rodavam sempre
Entre o campo e o campo,
Entre a seara e a eira,
Entre a horta e o pomar,
Sob o sol inclemente
E a chuva e o frio impiedoso.
Sabendo de cor os tempos
Da monda, da ceifa, da sementeira…
As fases da lua,
As estações do ano
E o ciclo integral da terra madre…
 
E no adro da igreja,
Aos domingos,
Havia chilreios de crianças
E a algazarra das comadres,
E dos amigos e compadres,
Com olhares largos de gratidão
E dialectos campesinos
Com trejeitos e sotaques
Únicos, cativantes, meninos,
Em palavras corridas ou cantadas
E a simplicidade de gestos com raízes:
- Padrinho, a sua bênção…
- Bem-haja vossemecê, senhor…
E despedidas de beijos com sabor
A sentimentos felizes
E altruísmos de sã esperança.
 
Do que resta nem a memória
Guarda razão
No deve e haver
Dum tempo definitivamente
Perdido!
by Paulo César, em 08.Junlo.2009, pelas 20h00
sinto-me: feliz e grato à terra
publicado por Paulo César às 20:56
Sábado , 20 de Junho DE 2009

A caminho...

 

Esta é uma dedicatória a ti, Natália!

 

Que lágrimas poderão toldar
A alegria de sentir gratidão?
Que tristeza poderá mirrar
A felicidade expressa num sorriso?
Que solidão virá para calar
A força comovente dum abraço?
Que dor ou agrura sobrará
Na hora de entregar no teu rosto
Um beijo límpido que gritará
Como a luz da estrela à hora do sol-posto?
 
Levantaremos pendões de festa…
Poremos balões e grinaldas nos caminhos…
Atapetaremos de flores silvestres as veredas,
Os carreiros, os trilhos, a eira…
E derramaremos música de acordeão
Num baile iluminado pela lua cheia
Onde farão coro os grilos noctívagos
E, de quando em vez, um galo madrugador!
 
Faremos, com novelos de saudade
E fios de memórias vivas, um rendilhado
De sons e imagens, de pessoas e lugares,
De tempos de há muito tempo…
Talvez nos julguem velhos…
Talvez nos apelidem de provincianos…
Talvez se riam da nossa insana vontade
De querer retornar ao útero da mãe terra
E retomar nas mãos a lama dos Invernos,
A poeira dos Estios cáusticos,
A doce aragem das Primaveras verdejantes,
Ou o odor intenso dos Outonos frutados.
Talvez nos ignorem!
 
Sobrará a teimosia de quem acredita
E a paixão de quem ama sem preconceitos!
E a terra que nos viu nascer
E nos fez, no desconchavo dos aziagos dias,
Gente de bem-querer
Nos dará, sem nunca reclamar, as alegrias
Do regresso, como uma bênção…
 
E nesse dia a chuva será de pétalas
E os campos, de lés a lés,
Hão-de ter a cor rubra das papoilas
Ou a festiva brancura dos malmequeres.
Chorarei então
E derramarei em caudal a gratidão
Dos que voltam para sempre. De vez!
 
Riam-se à vontade!
Quem aldeão nasceu
Há-de morrer aldeão
Mesmo que a força da cidade
O adopte como seu!
 
 
by Paulo César, em 20:Jun.2009, pelas 19h30
sinto-me: grato e feliz
publicado por Paulo César às 19:59

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