Sexta-feira , 27 de Setembro DE 2013

Torrão

 

publicado por Paulo César às 15:33
Sexta-feira , 02 de Outubro DE 2009

Poema para a Terra calada

 

Estendo os braços

e o mar à minha frente

tem cambiantes de loiro

e verde e castanho,

ondeando na planície

de malmequeres e papoilas,

onde as borboletas voejam

tontas

e o passaredo volteia

desenhando, no céu largo,

caminhos sem retorno.

 

Sobem odores do fundo

da terra

e descem à terra madre

sementes de futuro,

impregnados de vida,

que o sol chamará à luz,

depois que a noite adormecer

nos braços do orvalho

matinal.

 

Tanta vida silenciosa

assombra o meu olhar absorto!

Sorvo dum trago o horizonte

e de braços caídos

enlaço a vastidão de lés a lés,

embrenhando-me até aos ossos

na imensidão!

 

Um grilo canta,

uma rã coacha,

um pardal trina,

um galo cacareja,

uma ovelha bale,

um burro zurra,

um gato mia,

um cão ladra

e a terra pacata,

vivaz no seu sossego

manso,
escuta a algazarra

e redonda,

absoluta,
magestosa,

gera no seu seio de mulher

possuida

a vida que nos alimentará

até à comoção,

como se o poema

fosse o ponto de partida

para a aventura

da gratidão!

 

E se palavras forem precisas para dizer

obrigado

inventemos outra forma de o afirmar

para que cada sílaba seja

um hino, uma ode, um labéu

que cante a eterna canção dos filhos

da senhora sua mãe:


A Terra calada!

 


by Paulo César, em 22.Set.2009, pelas 22h30

 

sinto-me: inquieto
publicado por Paulo César às 18:35
Sexta-feira , 24 de Julho DE 2009

Gratidão

 

Se te negasse, negava-me,

extraia de mim o que sou por ti

o que ganhei por ser teu,

o que moldou em mim o todo

e define a parte,

o que conglomera e concretiza

a nudez rural

do homem que persisto ser,

porque nasci sob o céu

dos teus dias claros,

à sombra da serra que te protege,

e cresci na frescura das hortas

e dos pomares odorosos,

no silêncio das noites calmas,

ao luar da lua branca,

ouvindo o galo e o rouxinol,

o pintassilgo e o melro,

o arrulhar da rola mansa,

o sino desbragado

e as vozes estridentes

das gentes de coração lavado.


Se te negasse

tornarme-ia um fantasma,

nu, sem destino

e esquecerme-ia do sabor

da sopa, do pão, da segurelha

e jamais poderia reclamar

o olhar sereno dos meus avós

que me embalam na saudade

da perda que não é,

porque os tenho no cadinho do amor,

como te tenho TERRA,

que és chão e serás futuro,

que o passado e a memória

tornam mais presente

a cada novo e inesperado dia.


Se te negasse

implodiria o ser

e deixaria de poder bradar,

veemente,

o orgulho que me embarga o olhar

quando subo pelos fios da distância

e me aproximo ensimesmado

para gritar por dentro

o grito dos ausentes

que querem dizer e nunca dizem

o quanto é bela a aldeia que os pariu

meninos sem tamanho e sem idade!


E o grito que não sai,

reverbera no coração e na alma

e provoca um sobressalto, um torvelinho,

como se um vulcão quisesse explodir

e a lava solidificasse no canal de saída.

E eis que, depois de tanto tentar, o grito ressoa

para dizer em letras garrafais:

 

Obrigado Chancelaria!

 

by Paulo César, em 21.Jul.2009, pelas 12h00

 

sinto-me: grato
publicado por Paulo César às 19:01
Sábado , 20 de Junho DE 2009

A caminho...

 

Esta é uma dedicatória a ti, Natália!

 

Que lágrimas poderão toldar
A alegria de sentir gratidão?
Que tristeza poderá mirrar
A felicidade expressa num sorriso?
Que solidão virá para calar
A força comovente dum abraço?
Que dor ou agrura sobrará
Na hora de entregar no teu rosto
Um beijo límpido que gritará
Como a luz da estrela à hora do sol-posto?
 
Levantaremos pendões de festa…
Poremos balões e grinaldas nos caminhos…
Atapetaremos de flores silvestres as veredas,
Os carreiros, os trilhos, a eira…
E derramaremos música de acordeão
Num baile iluminado pela lua cheia
Onde farão coro os grilos noctívagos
E, de quando em vez, um galo madrugador!
 
Faremos, com novelos de saudade
E fios de memórias vivas, um rendilhado
De sons e imagens, de pessoas e lugares,
De tempos de há muito tempo…
Talvez nos julguem velhos…
Talvez nos apelidem de provincianos…
Talvez se riam da nossa insana vontade
De querer retornar ao útero da mãe terra
E retomar nas mãos a lama dos Invernos,
A poeira dos Estios cáusticos,
A doce aragem das Primaveras verdejantes,
Ou o odor intenso dos Outonos frutados.
Talvez nos ignorem!
 
Sobrará a teimosia de quem acredita
E a paixão de quem ama sem preconceitos!
E a terra que nos viu nascer
E nos fez, no desconchavo dos aziagos dias,
Gente de bem-querer
Nos dará, sem nunca reclamar, as alegrias
Do regresso, como uma bênção…
 
E nesse dia a chuva será de pétalas
E os campos, de lés a lés,
Hão-de ter a cor rubra das papoilas
Ou a festiva brancura dos malmequeres.
Chorarei então
E derramarei em caudal a gratidão
Dos que voltam para sempre. De vez!
 
Riam-se à vontade!
Quem aldeão nasceu
Há-de morrer aldeão
Mesmo que a força da cidade
O adopte como seu!
 
 
by Paulo César, em 20:Jun.2009, pelas 19h30
sinto-me: grato e feliz
publicado por Paulo César às 19:59
Sábado , 21 de Abril DE 2007

Memória...


De repente a imagem irrompe...
Não há como sustê-la, como evitá-la!
Traz consigo vozes e sons,
cheiros e cores,
pessoas sem tamanho ou medida,
grandes demais para se falar delas
em discursos de ocasião,
palavras, palavras e mais palavras,
momentos quase reais hoje,
porque o foram então,
cantigas desbragadas, simples, únicas...
Trazem vida! Obrigam a reviver!

De repente...
Como o chispar de um relâmpago!
Acendem um mar de estórias,
revolvem o trilho de anos,
sacudindo cada hora,
cada pequeno acontecer,
teimam ressurgir inteiras,
para tornarem mais autêntico
o tempo d'agora!



Do céu caiem cintilantes estrelas!
Pétalas de flores raras,
como o malmequer ou a papoila,
odores intensos como o azevém
ou a flor de laranjeira,
sons guturais como o chiadoiro
da carroça no pedregoso chão do caminho!

Vozes soam num coro sinfónico!
Falam, quase cantando, num modo inimitável
e trinando como os melros nos canaviais,
a rola na copa da oliveira,
ou o pintassilgo na horta fresca,
debicando uma folha tenra de alface.
Um balde sobe e desce numa picota
e vai fundo, no poço quase charco apenas,
sugar a água que escorre a dessedentar
os viçosos canteiros de verduras!

Os dias são grandes ou curtos
consoante os equinócios!
A vida é dura e esforçada
por força das necessidades!
E a memória é imensa
como é imenso o tempo que passou!

by Paulo César, em 21.Abril.2007, pelas 23h40
sinto-me: grato
publicado por Paulo César às 23:30
Domingo , 25 de Fevereiro DE 2007

Chancelaria




 
 
 
 
Apetece-me o pássaro azul…
 
Alvor de labaredas em torvelinho,
 
Baioneta, punhal, adaga ou quê…
 
Palavras que o vento traz e o vento leva,
 
Espuma branca na orla da praia!
 

 

 
Virão mil sombras e reflexos,
 
Pequenos fragmentos de coisa nenhuma;
 
Abalarão os alicerces da penumbra das coisas.
 
Pétala, folha seca, caule enxuto,
 
Raiz profunda, seiva e orvalho…
 

 

 
Pedra solta, rolada, no ribeiro quieto.
 
Carreiro de formigas, beijos fugidios,
 
Libélulas fugazes nas tardes estivais,
 
Odores a fruta e sons de zurros,
 
Entremeados de uivos, latidos e cacarejos!
 

 

 
Quieto povoado de entrevistos lugarejos.
 
O trinar do sino – a festa ou finados! –
 
Odores intensos a terra e pinhais,
 
Arvoredo denso, como densa é a memória
 
Do pão fresco nos matutinos dias.
 

 

 
by Paulo César, em 21.Jun.2005, pelas 06h40 (T.Towers)
 

sinto-me: grato
publicado por Paulo César às 18:26

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