Segunda-feira , 06 de Dezembro DE 2010

Que nome te darei, saudade?

Urze da serra (imagem obtida na net)

 

Deste longe vejo o que antes não via,

Estando perto…

 

Há cheiros no ar que só agora

Sinto

Vozes grinalda que vingaram os silêncios

Para acordar as auroras de todos os dias

Recados penitentes a trilhar caminhos

Que libertavam do purgatório

Eremitas luzeiros como archotes crentes

Que sinalizavam os sentimentos

Separando o trigo do joio

 

Soluços de aragem que sacudiam as copas

Esguias arremetendo ao azul

Líquidos húmus escorrendo das crostas

Como sangue de regras

Sibilinos sons de amálgama ou caldo

Que se fundem em oratórias de graças

Medo e superstições, unguentos e preces,

Fé viril e força angelical

Faces vítreas onde se espelham as almas

Que trazem gente em cada despojo

 

Trago carreiros suspensos na solidão

Das memórias

E retratos de fogo talhados na urgência

Do retorno ao chão

Para sentir-me quinhão!

 

Que nome te darei, saudade?

 

 

Em 05.dez.2010

M A C

publicado por Paulo César às 16:28
Sábado , 01 de Agosto DE 2009

Sopas de café com leite

 

Ainda no teu orvalho a refrescar me sinto...

Volto a ser teu filho, terra, repouso no teu regaço,

E ébrio de afagos, por entre os raios de sol, que finto,

Entrego-te o meu sorriso limpo, o meu abraço.

 

(excerto, adaptado, do poema “Lembranças” de Natália Canais Nuno)

 

 

Quisera eu ser ainda

pequeno, pequeno e sem tamanho,

para perder-me nos carreiros feitos das passadas

constantes, das idas e regressos,

e subir escarpas no frenesim das corridas,

no toque e foge do jogo,

na livre apanhada da brincadeira,

e saborear o teu afago de mãe e amiga,

quando o vento suão espirrava o calor

do fogo que trazia no seu alforge,

ou a nortada soprava o frio agreste,

que entrava corpo adentro,

pelo funil dos calções rotos,

dos pés descalços, da pele crestada,

sem pedir licença.

 

Retorno amiude

ao trono imperial dos sentidos

e vivo revivendo as horas sem tempo,

os dias sem tamanho,

os meses sem datas ou marcas,

e fico mais perto da escola e dos amigos,

do mestre e dos ensinamentos,

da vida e das verdades pueris,

que passaram por cada um e todos

com a pressa das coisas autênticas

na voragem do tempo irracional,

porque descomplicado e feliz,

sem nada mais do que uma bola de trapos,

uma côdea de pão medonhamente saboroso

e uma regaço cheio de sorrisos e chalreios.

 

Olho em redor e fixo as caras fechadas,

os sorrisos presos ou cozidos com ilhós

de desespero, angustia e muita revolta,

os braços caídos, as pernas pesadas,

os olhares baços ou enevoados de melancolia,

seres que o são, mas não parecem ser,

que não têm saudades, porque não têm aldeia,

que não têm memória, porque desconheceram a gargalhada

solta, a corrida sem freio, a dureza do chão pedregoso,

porque nunca esfacelaram os joelhos nas quedas abruptas.

Estranhamente (ou não) olho fixamente o longe

da paisagem sem contornos definidos e pressinto

o dia que nasce, adivinho o arrebol do sol que brota

dos confins do oriente, como avatar de alquimista,

e apetece-me uma tijela de sopas de café com leite...

 

E o cheiro é tão intenso e o sabor tão forte

que adormeço, na memória das coisas simples,

para acordar desluzido e anódino

perante uma folha de papel branco

que espera a vertigem das palavras,

que teimam povoar a insensatez

dos momentos translúcidos

em viagens de fantasia,

desde a terra da fartura ao nicho do sonho,

por caminhos transviados e solitários,

que não são os carreiros de outrora,

mas as autoestradas da globalização,

com amigos que se chamam através de fios e sinais

e a quem deixamos abraços que não aconchegam,

mas que querem ser como os que eram abraços.

 

Ah, mas se alguém por aí,

neste universo de palavras vivas,

neste recanto global de amigos sem fronteiras,

me pudesse presentear com o sabor

duma tijela de sopas de café com leite...

Certamente iria perceber

como é contagiosa a loucura dos poetas!

 

by Paulo César, em 01.Ago.2009, pelas 09h15

Obrigado Natália, pela ajuda...

 

sinto-me: desmesuradamente feliz
publicado por Paulo César às 10:02
Sábado , 20 de Junho DE 2009

A caminho...

 

Esta é uma dedicatória a ti, Natália!

 

Que lágrimas poderão toldar
A alegria de sentir gratidão?
Que tristeza poderá mirrar
A felicidade expressa num sorriso?
Que solidão virá para calar
A força comovente dum abraço?
Que dor ou agrura sobrará
Na hora de entregar no teu rosto
Um beijo límpido que gritará
Como a luz da estrela à hora do sol-posto?
 
Levantaremos pendões de festa…
Poremos balões e grinaldas nos caminhos…
Atapetaremos de flores silvestres as veredas,
Os carreiros, os trilhos, a eira…
E derramaremos música de acordeão
Num baile iluminado pela lua cheia
Onde farão coro os grilos noctívagos
E, de quando em vez, um galo madrugador!
 
Faremos, com novelos de saudade
E fios de memórias vivas, um rendilhado
De sons e imagens, de pessoas e lugares,
De tempos de há muito tempo…
Talvez nos julguem velhos…
Talvez nos apelidem de provincianos…
Talvez se riam da nossa insana vontade
De querer retornar ao útero da mãe terra
E retomar nas mãos a lama dos Invernos,
A poeira dos Estios cáusticos,
A doce aragem das Primaveras verdejantes,
Ou o odor intenso dos Outonos frutados.
Talvez nos ignorem!
 
Sobrará a teimosia de quem acredita
E a paixão de quem ama sem preconceitos!
E a terra que nos viu nascer
E nos fez, no desconchavo dos aziagos dias,
Gente de bem-querer
Nos dará, sem nunca reclamar, as alegrias
Do regresso, como uma bênção…
 
E nesse dia a chuva será de pétalas
E os campos, de lés a lés,
Hão-de ter a cor rubra das papoilas
Ou a festiva brancura dos malmequeres.
Chorarei então
E derramarei em caudal a gratidão
Dos que voltam para sempre. De vez!
 
Riam-se à vontade!
Quem aldeão nasceu
Há-de morrer aldeão
Mesmo que a força da cidade
O adopte como seu!
 
 
by Paulo César, em 20:Jun.2009, pelas 19h30
sinto-me: grato e feliz
publicado por Paulo César às 19:59

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