Sexta-feira , 14 de Agosto DE 2009

Achada

 
Taco a taco com a Natália, no seu soneto "Perdida"!
 
Descubro-te! E ao ver o teu sorrir
sinto que o azul, sem eufemismo,
te rodeia e te quer cingir
revelando gentil teu fatalismo!


Sabes e sentes – eu adivinho!
Que continuar é tomar norte,
é seguir ainda e sempre por um caminho
que te levará muito além da morte!


E se na rural vereda que se enfeita

com cantigas d'antanho, ainda que negues,

só há sonhos, e luz, e risos, estreita


entre os braços o que te desgosta
e altiva toma o sonho a quem deves

o tudo que és... Vá, não recuses; aposta!

 

by Paulo César, em 14.AGO.09, pelas 20h00

sinto-me: desafiado
publicado por Paulo César às 20:13

Férias

Olá...

 

"Ai que prazer não cumprir um dever... " (Fernando Pessoa)

 

Também vou estar por aí, liberto de afazeres com horário...

Vou de férias e só volto dia 1 de Setembro!

 

Não prometo não aparecer até lá, mas não sei se aparecerei...

 

Fiquem bem e... Façam o favor de ser felizes!

 

PC

sinto-me: bem, claro
publicado por Paulo César às 09:37
Sábado , 01 de Agosto DE 2009

Sopas de café com leite

 

Ainda no teu orvalho a refrescar me sinto...

Volto a ser teu filho, terra, repouso no teu regaço,

E ébrio de afagos, por entre os raios de sol, que finto,

Entrego-te o meu sorriso limpo, o meu abraço.

 

(excerto, adaptado, do poema “Lembranças” de Natália Canais Nuno)

 

 

Quisera eu ser ainda

pequeno, pequeno e sem tamanho,

para perder-me nos carreiros feitos das passadas

constantes, das idas e regressos,

e subir escarpas no frenesim das corridas,

no toque e foge do jogo,

na livre apanhada da brincadeira,

e saborear o teu afago de mãe e amiga,

quando o vento suão espirrava o calor

do fogo que trazia no seu alforge,

ou a nortada soprava o frio agreste,

que entrava corpo adentro,

pelo funil dos calções rotos,

dos pés descalços, da pele crestada,

sem pedir licença.

 

Retorno amiude

ao trono imperial dos sentidos

e vivo revivendo as horas sem tempo,

os dias sem tamanho,

os meses sem datas ou marcas,

e fico mais perto da escola e dos amigos,

do mestre e dos ensinamentos,

da vida e das verdades pueris,

que passaram por cada um e todos

com a pressa das coisas autênticas

na voragem do tempo irracional,

porque descomplicado e feliz,

sem nada mais do que uma bola de trapos,

uma côdea de pão medonhamente saboroso

e uma regaço cheio de sorrisos e chalreios.

 

Olho em redor e fixo as caras fechadas,

os sorrisos presos ou cozidos com ilhós

de desespero, angustia e muita revolta,

os braços caídos, as pernas pesadas,

os olhares baços ou enevoados de melancolia,

seres que o são, mas não parecem ser,

que não têm saudades, porque não têm aldeia,

que não têm memória, porque desconheceram a gargalhada

solta, a corrida sem freio, a dureza do chão pedregoso,

porque nunca esfacelaram os joelhos nas quedas abruptas.

Estranhamente (ou não) olho fixamente o longe

da paisagem sem contornos definidos e pressinto

o dia que nasce, adivinho o arrebol do sol que brota

dos confins do oriente, como avatar de alquimista,

e apetece-me uma tijela de sopas de café com leite...

 

E o cheiro é tão intenso e o sabor tão forte

que adormeço, na memória das coisas simples,

para acordar desluzido e anódino

perante uma folha de papel branco

que espera a vertigem das palavras,

que teimam povoar a insensatez

dos momentos translúcidos

em viagens de fantasia,

desde a terra da fartura ao nicho do sonho,

por caminhos transviados e solitários,

que não são os carreiros de outrora,

mas as autoestradas da globalização,

com amigos que se chamam através de fios e sinais

e a quem deixamos abraços que não aconchegam,

mas que querem ser como os que eram abraços.

 

Ah, mas se alguém por aí,

neste universo de palavras vivas,

neste recanto global de amigos sem fronteiras,

me pudesse presentear com o sabor

duma tijela de sopas de café com leite...

Certamente iria perceber

como é contagiosa a loucura dos poetas!

 

by Paulo César, em 01.Ago.2009, pelas 09h15

Obrigado Natália, pela ajuda...

 

sinto-me: desmesuradamente feliz
publicado por Paulo César às 10:02
Sexta-feira , 24 de Julho DE 2009

Gratidão

 

Se te negasse, negava-me,

extraia de mim o que sou por ti

o que ganhei por ser teu,

o que moldou em mim o todo

e define a parte,

o que conglomera e concretiza

a nudez rural

do homem que persisto ser,

porque nasci sob o céu

dos teus dias claros,

à sombra da serra que te protege,

e cresci na frescura das hortas

e dos pomares odorosos,

no silêncio das noites calmas,

ao luar da lua branca,

ouvindo o galo e o rouxinol,

o pintassilgo e o melro,

o arrulhar da rola mansa,

o sino desbragado

e as vozes estridentes

das gentes de coração lavado.


Se te negasse

tornarme-ia um fantasma,

nu, sem destino

e esquecerme-ia do sabor

da sopa, do pão, da segurelha

e jamais poderia reclamar

o olhar sereno dos meus avós

que me embalam na saudade

da perda que não é,

porque os tenho no cadinho do amor,

como te tenho TERRA,

que és chão e serás futuro,

que o passado e a memória

tornam mais presente

a cada novo e inesperado dia.


Se te negasse

implodiria o ser

e deixaria de poder bradar,

veemente,

o orgulho que me embarga o olhar

quando subo pelos fios da distância

e me aproximo ensimesmado

para gritar por dentro

o grito dos ausentes

que querem dizer e nunca dizem

o quanto é bela a aldeia que os pariu

meninos sem tamanho e sem idade!


E o grito que não sai,

reverbera no coração e na alma

e provoca um sobressalto, um torvelinho,

como se um vulcão quisesse explodir

e a lava solidificasse no canal de saída.

E eis que, depois de tanto tentar, o grito ressoa

para dizer em letras garrafais:

 

Obrigado Chancelaria!

 

by Paulo César, em 21.Jul.2009, pelas 12h00

 

sinto-me: grato
publicado por Paulo César às 19:01
Quarta-feira , 08 de Julho DE 2009

Tempos idos... Dialectos perdidos!

 

A par, mansos,
Pachorrentos e de olhos fundos,
Com a canga no cachaço
E os arreios sobre o dorso,
Seguia a junta de bois
Num andar pausado
Na longitudinal do espaço
Ao longo do rio de regos
Que o charrueque rasgava…
 
Na frente seguia um miúdo
Segurando a rédea do cabeçal,
Pés descalços,
Cabelo em desalinho
Olhar no infinito
E um assobio moço
Nos lábios de puto
A trinar, como pardal,
Ao ar fresco dos campos
Em poisio…
 
O arado chiava
No seu rodízio de metal
E segurando o punho da alfaia,
À ré, curvado
Na sua grandeza de ganhão
Vara de aguilhão
Em punho, veemente, em riste,
Fendendo o ar, dominador,
Ia o lavrador
Incentivando a parelha
E corrigindo a rota,
Com palavras sonoras,
Como um chiste:
- Eia, vá lá Bonito…
 
As levas içadas,
Esventradas e cruas,
Esboroavam-se vagarosas
Sob o sol impiedoso
E as minhocas minavam a terra,
Em busca do frescor,
A esconder-se das garças boieiras
Que afoitas e ligeiras
Cirandavam em torno
A buscar seu quinhão
No repasto da lavra…
 
A água corria duma infusa
De barro
Fresca como se corresse da bica
E as gargantas sedentas
Cantavam melhor
Quando o aguadeiro passava
Trazendo nos lábios
Uma cantiga sem história,
Feita de fiapos de memória:
- Oliveirinha da serra…
O vento leva a flor…
 
De sol a sol
As horas eram mais longas
E os dias tinham o tamanho
Da jorna
Com mata-bicho
Pela manhã mal começada,
O almoço ao meio-dia,
E a merenda no pico
Das tardes soalheiras
Quando as sombras
Sabiam a sonho
E o sol se empinava
Ainda à altura do infinito.
 
E quando a lua vinha espreitar
Havia ranchos pelos caminhos,
Cantando ao desafio,
A consumir o tempo
No regresso a casas térreas
Com lareiras de chão
E trempes de ferro
Onde a sopa recendia
E a mesa tinha a forma circular
Da vida
Com candeeiros de petróleo
Ou lanternas de luz mansa.
 
E quando a noite se afoitava
Definitiva
Sobrava o cansaço
E o sono assentava arraiais
Até que o galo imperial
Estrepitasse o silêncio da madrugada
E cantando cinco vezes
Anunciasse a faina de um novo
E imenso dia!
 
E era vê-los, aos magotes,
Homens e mulheres,
Rapazes e moças,
Cesto da bucha à ilharga
E alfaias às costas
A caminho das quintas
Cruzando lugarejos,
Lançando dichotes
E rindo um riso são
Limpo e cristalino
Com a desenvoltura
De iluminados
E a alegria de gente boa.
 
E os dias rodavam sempre
Entre o campo e o campo,
Entre a seara e a eira,
Entre a horta e o pomar,
Sob o sol inclemente
E a chuva e o frio impiedoso.
Sabendo de cor os tempos
Da monda, da ceifa, da sementeira…
As fases da lua,
As estações do ano
E o ciclo integral da terra madre…
 
E no adro da igreja,
Aos domingos,
Havia chilreios de crianças
E a algazarra das comadres,
E dos amigos e compadres,
Com olhares largos de gratidão
E dialectos campesinos
Com trejeitos e sotaques
Únicos, cativantes, meninos,
Em palavras corridas ou cantadas
E a simplicidade de gestos com raízes:
- Padrinho, a sua bênção…
- Bem-haja vossemecê, senhor…
E despedidas de beijos com sabor
A sentimentos felizes
E altruísmos de sã esperança.
 
Do que resta nem a memória
Guarda razão
No deve e haver
Dum tempo definitivamente
Perdido!
by Paulo César, em 08.Junlo.2009, pelas 20h00
sinto-me: feliz e grato à terra
publicado por Paulo César às 20:56
Sábado , 20 de Junho DE 2009

A caminho...

 

Esta é uma dedicatória a ti, Natália!

 

Que lágrimas poderão toldar
A alegria de sentir gratidão?
Que tristeza poderá mirrar
A felicidade expressa num sorriso?
Que solidão virá para calar
A força comovente dum abraço?
Que dor ou agrura sobrará
Na hora de entregar no teu rosto
Um beijo límpido que gritará
Como a luz da estrela à hora do sol-posto?
 
Levantaremos pendões de festa…
Poremos balões e grinaldas nos caminhos…
Atapetaremos de flores silvestres as veredas,
Os carreiros, os trilhos, a eira…
E derramaremos música de acordeão
Num baile iluminado pela lua cheia
Onde farão coro os grilos noctívagos
E, de quando em vez, um galo madrugador!
 
Faremos, com novelos de saudade
E fios de memórias vivas, um rendilhado
De sons e imagens, de pessoas e lugares,
De tempos de há muito tempo…
Talvez nos julguem velhos…
Talvez nos apelidem de provincianos…
Talvez se riam da nossa insana vontade
De querer retornar ao útero da mãe terra
E retomar nas mãos a lama dos Invernos,
A poeira dos Estios cáusticos,
A doce aragem das Primaveras verdejantes,
Ou o odor intenso dos Outonos frutados.
Talvez nos ignorem!
 
Sobrará a teimosia de quem acredita
E a paixão de quem ama sem preconceitos!
E a terra que nos viu nascer
E nos fez, no desconchavo dos aziagos dias,
Gente de bem-querer
Nos dará, sem nunca reclamar, as alegrias
Do regresso, como uma bênção…
 
E nesse dia a chuva será de pétalas
E os campos, de lés a lés,
Hão-de ter a cor rubra das papoilas
Ou a festiva brancura dos malmequeres.
Chorarei então
E derramarei em caudal a gratidão
Dos que voltam para sempre. De vez!
 
Riam-se à vontade!
Quem aldeão nasceu
Há-de morrer aldeão
Mesmo que a força da cidade
O adopte como seu!
 
 
by Paulo César, em 20:Jun.2009, pelas 19h30
sinto-me: grato e feliz
publicado por Paulo César às 19:59
Sexta-feira , 12 de Junho DE 2009

Que sobra de tanto bem-querer?

 

 Para aqueles que estando longe, mas em comunhão, ainda são capazes

do amor num rio de lágrimas, quando a emoção fala mais alto.
Aos Torrejanos, todos…
 
 
Oh rio cujas águas correndo mansas
Dessedentam as hortas onde o verde adeja…
E tu castelo de cujo promontório acenas e lanças
O grito do orgulho que em nós sobeja…
 
E vós campos vivos em desalinho,
Terras cor de fogo e figueirais,
Onde me achei gente e de caminho
Encontrei o sonho que não morre mais…
 
E ainda vós, oh vozes sonoras,
Chiadoiro de carroças e toque de sinos
Anúncio da festa ou dos finados…
 
Que é de vós, nestas inclementes horas?
Cerro todas as portadas aos desatinos
E o que escuto são apenas os vossos brados!
 
 
by Paulo César, em 12.Jun.2009, pelas 08h45
 
sinto-me: luminoso
publicado por Paulo César às 18:54
Domingo , 22 de Abril DE 2007

Doravante serei um homem simples



Doravante serei um homem simples!

Um homem do campo

Que só conhece o cheiro acre da terra

Após uma trovoada de Maio,

Um homem que ama

Os animais que alimenta

Antes do nascer do sol

E a quem pastoreia ao longo do dia

Na calma silenciosa do tempo

Lento e inexorável,

Um homem que lavra e semeia,

Monda e colhe,

Carregando aos ombros

O peso dos dias invernosos

Ou a beleza pueril dos primaveris,

E os traços rugosos que o suor

Cava no rosto crestado

Pelo sol impiedoso.



 

Começa aqui a caminhada.

Regresso às origens!

Nunca é tarde demais

Para quem nasceu

No lastro da terra

Amassando a vida

Com as próprias mãos!

 

 

by Paulo César, em 16.Out.2005, pelas 17h45 (Twin Towers)

sinto-me: nostágico
publicado por Paulo César às 16:36
Sábado , 21 de Abril DE 2007

Memória...


De repente a imagem irrompe...
Não há como sustê-la, como evitá-la!
Traz consigo vozes e sons,
cheiros e cores,
pessoas sem tamanho ou medida,
grandes demais para se falar delas
em discursos de ocasião,
palavras, palavras e mais palavras,
momentos quase reais hoje,
porque o foram então,
cantigas desbragadas, simples, únicas...
Trazem vida! Obrigam a reviver!

De repente...
Como o chispar de um relâmpago!
Acendem um mar de estórias,
revolvem o trilho de anos,
sacudindo cada hora,
cada pequeno acontecer,
teimam ressurgir inteiras,
para tornarem mais autêntico
o tempo d'agora!



Do céu caiem cintilantes estrelas!
Pétalas de flores raras,
como o malmequer ou a papoila,
odores intensos como o azevém
ou a flor de laranjeira,
sons guturais como o chiadoiro
da carroça no pedregoso chão do caminho!

Vozes soam num coro sinfónico!
Falam, quase cantando, num modo inimitável
e trinando como os melros nos canaviais,
a rola na copa da oliveira,
ou o pintassilgo na horta fresca,
debicando uma folha tenra de alface.
Um balde sobe e desce numa picota
e vai fundo, no poço quase charco apenas,
sugar a água que escorre a dessedentar
os viçosos canteiros de verduras!

Os dias são grandes ou curtos
consoante os equinócios!
A vida é dura e esforçada
por força das necessidades!
E a memória é imensa
como é imenso o tempo que passou!

by Paulo César, em 21.Abril.2007, pelas 23h40
sinto-me: grato
publicado por Paulo César às 23:30
Domingo , 25 de Fevereiro DE 2007

Chancelaria




 
 
 
 
Apetece-me o pássaro azul…
 
Alvor de labaredas em torvelinho,
 
Baioneta, punhal, adaga ou quê…
 
Palavras que o vento traz e o vento leva,
 
Espuma branca na orla da praia!
 

 

 
Virão mil sombras e reflexos,
 
Pequenos fragmentos de coisa nenhuma;
 
Abalarão os alicerces da penumbra das coisas.
 
Pétala, folha seca, caule enxuto,
 
Raiz profunda, seiva e orvalho…
 

 

 
Pedra solta, rolada, no ribeiro quieto.
 
Carreiro de formigas, beijos fugidios,
 
Libélulas fugazes nas tardes estivais,
 
Odores a fruta e sons de zurros,
 
Entremeados de uivos, latidos e cacarejos!
 

 

 
Quieto povoado de entrevistos lugarejos.
 
O trinar do sino – a festa ou finados! –
 
Odores intensos a terra e pinhais,
 
Arvoredo denso, como densa é a memória
 
Do pão fresco nos matutinos dias.
 

 

 
by Paulo César, em 21.Jun.2005, pelas 06h40 (T.Towers)
 

sinto-me: grato
publicado por Paulo César às 18:26

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