Sopas de café com leite

 

Ainda no teu orvalho a refrescar me sinto...

Volto a ser teu filho, terra, repouso no teu regaço,

E ébrio de afagos, por entre os raios de sol, que finto,

Entrego-te o meu sorriso limpo, o meu abraço.

 

(excerto, adaptado, do poema “Lembranças” de Natália Canais Nuno)

 

 

Quisera eu ser ainda

pequeno, pequeno e sem tamanho,

para perder-me nos carreiros feitos das passadas

constantes, das idas e regressos,

e subir escarpas no frenesim das corridas,

no toque e foge do jogo,

na livre apanhada da brincadeira,

e saborear o teu afago de mãe e amiga,

quando o vento suão espirrava o calor

do fogo que trazia no seu alforge,

ou a nortada soprava o frio agreste,

que entrava corpo adentro,

pelo funil dos calções rotos,

dos pés descalços, da pele crestada,

sem pedir licença.

 

Retorno amiude

ao trono imperial dos sentidos

e vivo revivendo as horas sem tempo,

os dias sem tamanho,

os meses sem datas ou marcas,

e fico mais perto da escola e dos amigos,

do mestre e dos ensinamentos,

da vida e das verdades pueris,

que passaram por cada um e todos

com a pressa das coisas autênticas

na voragem do tempo irracional,

porque descomplicado e feliz,

sem nada mais do que uma bola de trapos,

uma côdea de pão medonhamente saboroso

e uma regaço cheio de sorrisos e chalreios.

 

Olho em redor e fixo as caras fechadas,

os sorrisos presos ou cozidos com ilhós

de desespero, angustia e muita revolta,

os braços caídos, as pernas pesadas,

os olhares baços ou enevoados de melancolia,

seres que o são, mas não parecem ser,

que não têm saudades, porque não têm aldeia,

que não têm memória, porque desconheceram a gargalhada

solta, a corrida sem freio, a dureza do chão pedregoso,

porque nunca esfacelaram os joelhos nas quedas abruptas.

Estranhamente (ou não) olho fixamente o longe

da paisagem sem contornos definidos e pressinto

o dia que nasce, adivinho o arrebol do sol que brota

dos confins do oriente, como avatar de alquimista,

e apetece-me uma tijela de sopas de café com leite...

 

E o cheiro é tão intenso e o sabor tão forte

que adormeço, na memória das coisas simples,

para acordar desluzido e anódino

perante uma folha de papel branco

que espera a vertigem das palavras,

que teimam povoar a insensatez

dos momentos translúcidos

em viagens de fantasia,

desde a terra da fartura ao nicho do sonho,

por caminhos transviados e solitários,

que não são os carreiros de outrora,

mas as autoestradas da globalização,

com amigos que se chamam através de fios e sinais

e a quem deixamos abraços que não aconchegam,

mas que querem ser como os que eram abraços.

 

Ah, mas se alguém por aí,

neste universo de palavras vivas,

neste recanto global de amigos sem fronteiras,

me pudesse presentear com o sabor

duma tijela de sopas de café com leite...

Certamente iria perceber

como é contagiosa a loucura dos poetas!

 

by Paulo César, em 01.Ago.2009, pelas 09h15

Obrigado Natália, pela ajuda...

 

sinto-me: desmesuradamente feliz
publicado por Paulo César às 10:02