Gratidão

 

Se te negasse, negava-me,

extraia de mim o que sou por ti

o que ganhei por ser teu,

o que moldou em mim o todo

e define a parte,

o que conglomera e concretiza

a nudez rural

do homem que persisto ser,

porque nasci sob o céu

dos teus dias claros,

à sombra da serra que te protege,

e cresci na frescura das hortas

e dos pomares odorosos,

no silêncio das noites calmas,

ao luar da lua branca,

ouvindo o galo e o rouxinol,

o pintassilgo e o melro,

o arrulhar da rola mansa,

o sino desbragado

e as vozes estridentes

das gentes de coração lavado.


Se te negasse

tornarme-ia um fantasma,

nu, sem destino

e esquecerme-ia do sabor

da sopa, do pão, da segurelha

e jamais poderia reclamar

o olhar sereno dos meus avós

que me embalam na saudade

da perda que não é,

porque os tenho no cadinho do amor,

como te tenho TERRA,

que és chão e serás futuro,

que o passado e a memória

tornam mais presente

a cada novo e inesperado dia.


Se te negasse

implodiria o ser

e deixaria de poder bradar,

veemente,

o orgulho que me embarga o olhar

quando subo pelos fios da distância

e me aproximo ensimesmado

para gritar por dentro

o grito dos ausentes

que querem dizer e nunca dizem

o quanto é bela a aldeia que os pariu

meninos sem tamanho e sem idade!


E o grito que não sai,

reverbera no coração e na alma

e provoca um sobressalto, um torvelinho,

como se um vulcão quisesse explodir

e a lava solidificasse no canal de saída.

E eis que, depois de tanto tentar, o grito ressoa

para dizer em letras garrafais:

 

Obrigado Chancelaria!

 

by Paulo César, em 21.Jul.2009, pelas 12h00

 

sinto-me: grato
publicado por Paulo César às 19:01