Tempos idos... Dialectos perdidos!

 

A par, mansos,
Pachorrentos e de olhos fundos,
Com a canga no cachaço
E os arreios sobre o dorso,
Seguia a junta de bois
Num andar pausado
Na longitudinal do espaço
Ao longo do rio de regos
Que o charrueque rasgava…
 
Na frente seguia um miúdo
Segurando a rédea do cabeçal,
Pés descalços,
Cabelo em desalinho
Olhar no infinito
E um assobio moço
Nos lábios de puto
A trinar, como pardal,
Ao ar fresco dos campos
Em poisio…
 
O arado chiava
No seu rodízio de metal
E segurando o punho da alfaia,
À ré, curvado
Na sua grandeza de ganhão
Vara de aguilhão
Em punho, veemente, em riste,
Fendendo o ar, dominador,
Ia o lavrador
Incentivando a parelha
E corrigindo a rota,
Com palavras sonoras,
Como um chiste:
- Eia, vá lá Bonito…
 
As levas içadas,
Esventradas e cruas,
Esboroavam-se vagarosas
Sob o sol impiedoso
E as minhocas minavam a terra,
Em busca do frescor,
A esconder-se das garças boieiras
Que afoitas e ligeiras
Cirandavam em torno
A buscar seu quinhão
No repasto da lavra…
 
A água corria duma infusa
De barro
Fresca como se corresse da bica
E as gargantas sedentas
Cantavam melhor
Quando o aguadeiro passava
Trazendo nos lábios
Uma cantiga sem história,
Feita de fiapos de memória:
- Oliveirinha da serra…
O vento leva a flor…
 
De sol a sol
As horas eram mais longas
E os dias tinham o tamanho
Da jorna
Com mata-bicho
Pela manhã mal começada,
O almoço ao meio-dia,
E a merenda no pico
Das tardes soalheiras
Quando as sombras
Sabiam a sonho
E o sol se empinava
Ainda à altura do infinito.
 
E quando a lua vinha espreitar
Havia ranchos pelos caminhos,
Cantando ao desafio,
A consumir o tempo
No regresso a casas térreas
Com lareiras de chão
E trempes de ferro
Onde a sopa recendia
E a mesa tinha a forma circular
Da vida
Com candeeiros de petróleo
Ou lanternas de luz mansa.
 
E quando a noite se afoitava
Definitiva
Sobrava o cansaço
E o sono assentava arraiais
Até que o galo imperial
Estrepitasse o silêncio da madrugada
E cantando cinco vezes
Anunciasse a faina de um novo
E imenso dia!
 
E era vê-los, aos magotes,
Homens e mulheres,
Rapazes e moças,
Cesto da bucha à ilharga
E alfaias às costas
A caminho das quintas
Cruzando lugarejos,
Lançando dichotes
E rindo um riso são
Limpo e cristalino
Com a desenvoltura
De iluminados
E a alegria de gente boa.
 
E os dias rodavam sempre
Entre o campo e o campo,
Entre a seara e a eira,
Entre a horta e o pomar,
Sob o sol inclemente
E a chuva e o frio impiedoso.
Sabendo de cor os tempos
Da monda, da ceifa, da sementeira…
As fases da lua,
As estações do ano
E o ciclo integral da terra madre…
 
E no adro da igreja,
Aos domingos,
Havia chilreios de crianças
E a algazarra das comadres,
E dos amigos e compadres,
Com olhares largos de gratidão
E dialectos campesinos
Com trejeitos e sotaques
Únicos, cativantes, meninos,
Em palavras corridas ou cantadas
E a simplicidade de gestos com raízes:
- Padrinho, a sua bênção…
- Bem-haja vossemecê, senhor…
E despedidas de beijos com sabor
A sentimentos felizes
E altruísmos de sã esperança.
 
Do que resta nem a memória
Guarda razão
No deve e haver
Dum tempo definitivamente
Perdido!
by Paulo César, em 08.Junlo.2009, pelas 20h00
sinto-me: feliz e grato à terra
publicado por Paulo César às 20:56