Memória...


De repente a imagem irrompe...
Não há como sustê-la, como evitá-la!
Traz consigo vozes e sons,
cheiros e cores,
pessoas sem tamanho ou medida,
grandes demais para se falar delas
em discursos de ocasião,
palavras, palavras e mais palavras,
momentos quase reais hoje,
porque o foram então,
cantigas desbragadas, simples, únicas...
Trazem vida! Obrigam a reviver!

De repente...
Como o chispar de um relâmpago!
Acendem um mar de estórias,
revolvem o trilho de anos,
sacudindo cada hora,
cada pequeno acontecer,
teimam ressurgir inteiras,
para tornarem mais autêntico
o tempo d'agora!



Do céu caiem cintilantes estrelas!
Pétalas de flores raras,
como o malmequer ou a papoila,
odores intensos como o azevém
ou a flor de laranjeira,
sons guturais como o chiadoiro
da carroça no pedregoso chão do caminho!

Vozes soam num coro sinfónico!
Falam, quase cantando, num modo inimitável
e trinando como os melros nos canaviais,
a rola na copa da oliveira,
ou o pintassilgo na horta fresca,
debicando uma folha tenra de alface.
Um balde sobe e desce numa picota
e vai fundo, no poço quase charco apenas,
sugar a água que escorre a dessedentar
os viçosos canteiros de verduras!

Os dias são grandes ou curtos
consoante os equinócios!
A vida é dura e esforçada
por força das necessidades!
E a memória é imensa
como é imenso o tempo que passou!

by Paulo César, em 21.Abril.2007, pelas 23h40
sinto-me: grato
publicado por Paulo César às 23:30