Lembrei-me da urze
porque me lembrei da serra
dos montes e vales
do ar puro e das pedras rudes
dos coelhos bravos e das borboletas
dos carreiros estreitos e do mato denso
de pequenas fontes de fios cristalinos
e de poças eternas guardiãs da chuva
que dessedentava as gargantas secas
no pico do verão.
Lembrei-me da urze
porque me acudiu a memória
dos pinheirais zoando
à passagem do vento norte
da caruma seca e das pinhas
do odor intenso a resina
e dos cogumelos alapados
irrompendo do humus
da terra areenta.
Lembrei-me da urze
porque me invadiu o ribeiro
as rãs coachando
as lagartixas fura vidas
as cobras e os lagartos langorosos
as formigas rabinas
na lufa-lufa duma azáfama
sem horário nem escala
as libélulas elegantes
numa dança imortal de tão leve.
Lembrei-me da urze
e por ela acabei por me alcandorar
aos cumes do tempo descalço
dos risos desdentados
dos calções passajados e puidos
das mãos e dos corpos tisnados
dos sons naturais da terra e da gente
dos dias prenhes de esforço
e das noites silenciosas de descanso
Lembrei-me da urze...
e de tudo o que puxado o fio
se desata sem nós cegos
num mundo de doce e amargo
de luz e sombras
de risos e lágrimas
de ficar quedo e nunca parar
de amar
com despudor e orgulho
o que se ama apenas porque sim.
by Paulo César, em 02.Nov.2009, pelas 19h30
Escondo-me nas palavras como se amassase pão, como se colhesse flores, como se plantasse espantalhos na cercadura da seara, como se esperasse um dia novo amanhã!
Doiem-me os teus olhos que não tenho, as tuas mãos que foram embora, o teu sorriso como construção do sonho, o teu afago, ternurento, como arco-íris dos sentimentos indefinidos! À míngua de ti invento até a dor, a saudade, a angústia, cedendo à pressa de te ter de novo para regenerar as horas e semear os dias de cores simplesmente vivas.
O mar das remotas imagens balança numa maré alta por dentro de mim. E a praia tem estranhas nuances quando a tua ausência se faz presente. Esqueço-me do que me rodeia! Vivo a dor como se fora verdadeira e aplaco-a somente quando na hora do sono adormeço ao som da tua voz que me fala suave e macia na textura da almofada. Adormeço feliz e espanto a dor como se fora miragem, para viver apenas aquele momento nosso - que tu estás mesmo não estando!
E assim liberto enxergo longe o que está por dentro de mim:
- Um claro sol e tanta aurora...
by Paulo César, em 20.Out.2009, pelas 20h00
Estendo os braços e o mar à minha frente tem cambiantes de loiro e verde e castanho, ondeando na planície de malmequeres e papoilas, onde as borboletas voejam tontas e o passaredo volteia
desenhando, no céu largo, caminhos sem retorno. Sobem odores do fundo da terra e descem à terra madre sementes de futuro, impregnados de vida, que o sol chamará à luz, depois que a noite adormecer nos braços do orvalho
Tanta vida silenciosa
assombra o meu olhar absorto!
Sorvo dum trago o horizonte
e de braços caídos
enlaço a vastidão de lés a lés,
embrenhando-me até aos ossos
na imensidão!
Um grilo canta,
uma rã coacha,
um pardal trina,
um galo cacareja,
uma ovelha bale,
um burro zurra,
um gato mia,
um cão ladra
e a terra pacata,
vivaz no seu sossego
e redonda,
gera no seu seio de mulher
a vida que nos alimentará
até à comoção,
como se o poema
fosse o ponto de partida
para a aventura
da gratidão!
E se palavras forem precisas para dizer
inventemos outra forma de o afirmar
para que cada sílaba seja
um hino, uma ode, um labéu
que cante a eterna canção dos filhos
da senhora sua mãe:
A Terra calada!
by Paulo César, em 22.Set.2009, pelas 22h30
com cantigas d'antanho, ainda que negues,
só há sonhos, e luz, e risos, estreita
o tudo que és... Vá, não recuses; aposta!
by Paulo César, em 14.AGO.09, pelas 20h00
Olá...
"Ai que prazer não cumprir um dever... " (Fernando Pessoa)
Também vou estar por aí, liberto de afazeres com horário...
Vou de férias e só volto dia 1 de Setembro!
Não prometo não aparecer até lá, mas não sei se aparecerei...
Fiquem bem e... Façam o favor de ser felizes!
PC
Ainda no teu orvalho a refrescar me sinto...
Volto a ser teu filho, terra, repouso no teu regaço,
E ébrio de afagos, por entre os raios de sol, que finto,
Entrego-te o meu sorriso limpo, o meu abraço. (excerto, adaptado, do poema “Lembranças” de Natália Canais Nuno)
Quisera eu ser ainda
pequeno, pequeno e sem tamanho,
para perder-me nos carreiros feitos das passadas
constantes, das idas e regressos,
e subir escarpas no frenesim das corridas,
no toque e foge do jogo,
na livre apanhada da brincadeira,
e saborear o teu afago de mãe e amiga,
quando o vento suão espirrava o calor
do fogo que trazia no seu alforge,
ou a nortada soprava o frio agreste,
que entrava corpo adentro,
pelo funil dos calções rotos,
dos pés descalços, da pele crestada,
sem pedir licença.
Retorno amiude
ao trono imperial dos sentidos
e vivo revivendo as horas sem tempo,
os dias sem tamanho,
os meses sem datas ou marcas,
e fico mais perto da escola e dos amigos,
do mestre e dos ensinamentos,
da vida e das verdades pueris,
que passaram por cada um e todos
com a pressa das coisas autênticas
na voragem do tempo irracional,
porque descomplicado e feliz,
sem nada mais do que uma bola de trapos,
uma côdea de pão medonhamente saboroso
e uma regaço cheio de sorrisos e chalreios.
Olho em redor e fixo as caras fechadas,
os sorrisos presos ou cozidos com ilhós
de desespero, angustia e muita revolta,
os braços caídos, as pernas pesadas,
os olhares baços ou enevoados de melancolia,
seres que o são, mas não parecem ser,
que não têm saudades, porque não têm aldeia,
que não têm memória, porque desconheceram a gargalhada
solta, a corrida sem freio, a dureza do chão pedregoso,
porque nunca esfacelaram os joelhos nas quedas abruptas.
Estranhamente (ou não) olho fixamente o longe
da paisagem sem contornos definidos e pressinto
o dia que nasce, adivinho o arrebol do sol que brota
dos confins do oriente, como avatar de alquimista,
e apetece-me uma tijela de sopas de café com leite...
E o cheiro é tão intenso e o sabor tão forte
que adormeço, na memória das coisas simples,
para acordar desluzido e anódino
perante uma folha de papel branco
que espera a vertigem das palavras,
que teimam povoar a insensatez
dos momentos translúcidos
em viagens de fantasia,
desde a terra da fartura ao nicho do sonho,
por caminhos transviados e solitários,
que não são os carreiros de outrora,
mas as autoestradas da globalização,
com amigos que se chamam através de fios e sinais
e a quem deixamos abraços que não aconchegam,
mas que querem ser como os que eram abraços.
Ah, mas se alguém por aí,
neste universo de palavras vivas,
neste recanto global de amigos sem fronteiras,
me pudesse presentear com o sabor
duma tijela de sopas de café com leite...
Certamente iria perceber
como é contagiosa a loucura dos poetas!
by Paulo César, em 01.Ago.2009, pelas 09h15 Obrigado Natália, pela ajuda...
Se te negasse, negava-me,
extraia de mim o que sou por ti
o que ganhei por ser teu,
o que moldou em mim o todo
e define a parte,
o que conglomera e concretiza
a nudez rural
do homem que persisto ser,
porque nasci sob o céu
dos teus dias claros,
à sombra da serra que te protege,
e cresci na frescura das hortas
e dos pomares odorosos,
no silêncio das noites calmas,
ao luar da lua branca,
ouvindo o galo e o rouxinol,
o pintassilgo e o melro,
o arrulhar da rola mansa,
o sino desbragado
e as vozes estridentes
das gentes de coração lavado.
Se te negasse
tornarme-ia um fantasma,
nu, sem destino
e esquecerme-ia do sabor
da sopa, do pão, da segurelha
e jamais poderia reclamar
o olhar sereno dos meus avós
que me embalam na saudade
da perda que não é,
porque os tenho no cadinho do amor,
como te tenho TERRA,
que és chão e serás futuro,
que o passado e a memória
tornam mais presente
a cada novo e inesperado dia.
Se te negasse
implodiria o ser
e deixaria de poder bradar,
o orgulho que me embarga o olhar
quando subo pelos fios da distância
e me aproximo ensimesmado
para gritar por dentro
o grito dos ausentes
que querem dizer e nunca dizem
o quanto é bela a aldeia que os pariu
meninos sem tamanho e sem idade!
E o grito que não sai,
reverbera no coração e na alma
e provoca um sobressalto, um torvelinho,
como se um vulcão quisesse explodir
e a lava solidificasse no canal de saída.
E eis que, depois de tanto tentar, o grito ressoa
para dizer em letras garrafais:
Obrigado Chancelaria!
by Paulo César, em 21.Jul.2009, pelas 12h00
Esta é uma dedicatória a ti, Natália!
Para aqueles que estando longe, mas em comunhão, ainda são capazes
Eleitos